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| INTERFERENTES HORMONAIS |
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DISRUPTORS HORMONE |
1 - Hormônios:
São substâncias químicas produzidas pelo organismo em diversas
glândulas do corpo e que agem em locais específicos regulando ou alterando
determinado órgão ou função. São carreados pela corrente sangüínea em níveis ínfimos
e agem como uma espécie de mensageiros, provendo comunicação entre diferentes
partes do organismo. São muitas as glândulas (pâncreas, tireóide, gônadas -
ovários e testículos, supra-renais etc.) e os tipos de hormônio existentes.
São eles que ajudam a regular a pressão sangüínea, determinam o crescimento
das gônadas e dos caracteres sexuais, regulam o uso dos alimentos e a produção
de insulina para queimar o açúcar que ingerimos etc.
Eles desempenham um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento,
na reprodução e na diferenciação sexual e ainda na formação do sistema nervoso
e imunológico. Variações destas substâncias para mais ou para menos podem alterar
funções e características de órgãos e sistemas, principalmente em períodos
críticos do crescimento e de formação dos órgãos e tecidos, como ocorre durante
a fase embrionária e de crescimento rápido.
Como agem a distância de onde são produzidos, os hormônios
tem um receptor específico no seu local de atuação, que é a forma do organismo
reconhecer a substância - uma espécie de mecanismo de chave e fechadura. Assim,
para cada hormônio específico, há receptores que o reconhecem em que ele se
encaixa para ser absorvido e agir no local.
Mas hormônios não existem somente em seres humanos, eles estão
presentes na natureza tanto em outros animais como nos vegetais. Entre os vertebrados,
há bastante semelhança entre os hormônios existentes nas diversas espécies
tanto em sua forma quanto em sua função. Nos vegetais, embora tenham outra
estrutura e outras funções, o mecanismo pelo qual eles atuam é semelhante.
Esta é a razão pela qual uma substância que interfira no mecanismo de ação
hormonal pode atuar alterando o desenvolvimento, reprodução e funções de seres
vivos de diversas espécies a ela expostos.
2 - "Disruptores Hormone"(Interferentes Hormonais):
Um agente "disruptor" hormonal é um agente exógeno que
interfere na síntese, reserva/liberação, transporte, metabolismo, ligação,
ação ou eliminação de hormônios naturais do organismo responsáveis pela regulação
da homeostase e dos processos de desenvolvimento. (Kavlock et al. 1996)
Alguns produtos químicos sintéticos tem a capacidade de interferir
no mecanismo de ação dos hormônios, principalmente os esteróides (que regulam
o colesterol - hormônios sexuais, adreno-cortical, ácidos biliares etc.) e
os da tireóide. Alguns estudos levam a crer que é mais importante o tempo do
que a dose de exposição a estes químicos, alem do período em que o indivíduo
foi exposto (mais susceptível em determinadas fases do crescimento e do desenvolvimento).
Os mecanismos apontados como prováveis para a ação destes químicos são as seguintes:
- Mimetizando o próprio hormônio, ou seja, interagindo com o receptor específico
para desencadear as alterações que seriam provocadas pelo hormônio naquele
sítio de atuação. Os químicos de ação estrogênica agem por este mecanismo;
- Bloqueando a ação do hormônio ao ocupar os receptores que seriam destinados
especificamente a ele, impedindo, dessa forma, que sua função seja exercida.
Agem assim os químicos que interferem na ação do hormônio masculino, impedindo
a ação androgênica do mesmo. Como exemplo dessa ação têm-se o DDE (metabolito
do DDT);
- Causando danos no metabolismo dos hormônios, isto e, na sua síntese ou
na sua destruição e eliminação fisiológica ou natural. Os organoclorados,
como o DDE por ex., podem alterar dessa forma o metabolismo dos estrogênios;
- Afetando o Sistema Nervoso Central (o cérebro), onde está o principal
controle de produção hormonal, a glândula pituitária, que por sua vez é regulada
pelo tálamo e pelo hipotálamo, outras partes do cérebro. Todos os hormônios
são regulados também por mecanismos de feedback, isto é, são produzidos
de acordo com os níveis detectados na corrente sangüínea, constantemente
monitorados pelo hipotálamo. Uma interferência em nível central afeta, por
isso, o controle de diversos hormônios. Esse mecanismo de controle pode estar
alterado tanto por receber informação errada quanto a níveis sangüíneos (por
conta de mimetismo, por ex.), como por ações deletérias sofridas diretamente
pelo próprio sistema nervoso central;
- Efeito tóxico das dioxinas: há um receptor celular não hormonal, em que
as dioxinas e os PCBs podem interagir com as células e desencadear uma série
de efeitos biológicos, dentre os quais, o bloqueio hormonal. Esse pode ser
o mecanismo pelo qual estes químicos causam efeito anti-estrogênico e alteram
os níveis dos hormônios da tireóide;
Alguns químicos podem atuar por múltiplos mecanismos, bem
como, a exposição a múltiplos agentes bloqueadores ou interruptores da ação
hormonal pode ter ação não só acumulativa, mas potencializada. Como a maioria
dos químicos que tem essa ação são também persistentes no ambiente e bioacumulativos, é difícil
estabelecer relação direta causal de apenas uma determinada substância. Além
disso, o fato de se acumularem nas gorduras faz com que o nível interno de
contaminação seja sempre superior ao do ambiente externo. Também faz com que
os níveis dessas substâncias estejam sempre milhões de vezes mais altos do
que os próprios hormônios naturais produzidos pelo organismo, o que aumentam
as chances de ação deletéria para o organismo na competição pelos sítios receptores.
Das milhares de substâncias sintéticas com potencial deletério
para o sistema hormonal, apenas algumas foram estudadas e testadas. São as
seguintes as principais substâncias conhecidas ou suspeitas de ação deletéria
para o sitiam hormonal:
Organohalogenados:
- Dioxinas - produzidas durante processos de fabricação, armazenamento e
disposição final de compostos que envolvem cloro, principalmente quando envolvem
combustão, como nos incineradores;
- PCBs - policlorados de bifenilas - ainda usados como isolantes termoelétricos
em equipamentos antigos; encontrados armazenados após troca de equipamentos,
contaminam muitos landfills e lixões industriais;
- Percloroetileno - solvente industrial e usado no processo de lavagem a
seco;
Fenois halogenados:
- Pentaclorofenol - PCP - preservativo de madeira e em têxteis, foi banido
seu uso em muitos países e em toda Europa;
- Polybrominato de bisphenol-A - usado para retardar combustão em plásticos;
- 4-Cl-3-methylphenol - usado em cosméticos;
- 4-Cl-2-methylphenol - usado como aditivo de pesticidas.
Pesticidas:
- amitrole, benomyl, carbaryl, carbofuran, fungicidas conazoles, diazinon,
linuron, mancozeb, maneb, metiran, metribuzin, oxymetonmethyl, parathyon,
phenylphenol,procymidone, alguns pyrethroides, thiran, trybutyl tin (TBT,
vinclozin, zineb, ziran).
Pesticidas organoclorados:
-
alachlor, atrazine, chlordane, chlordecone (kepone), DDT, DDE, DBCP, dicofol,
dieldrin, endosulfan, hexachlorobenzeno, beta-HCH, gamma-HCH (lindano),
methoxychlor, mirex, toxaphene, transnonachlor.
Plásticos:
- BBP - benzylbutylphthalate e DBP - di-n-butylphthalate.
Químicos industriais:
- Químicos alquil-fenolicos: como o 4-nonyl-phenol, 4-tert-octylphenol;
- Bisphenol-A;
- T-Butylhydroxyanisole (BHA);
- Chumbo;
- Metyl-mercurio;
- Cádmio;
- Estirenos;
- Hidrocarbonetos aromáticos (alguns);
- DMFA - dimethyl formamide;
- Ethylene glycol.
3 - Ação Internacional:
Em janeiro de 1997 (23 a 24), em Washington D.C., EUA, um
workshop organizado pela UNEP - United Nations Environmental Programme, United
States Environmental Protection Agency, White House Office of Science and Technology
policy, Homeland Foundation, e W. Alton Jones Foundation and Conservation,
Food & Health Foundation Inc sobre "disruptores" endócrinos reuniu em torno
de quatro objetivos principais:
- Fazer uma revisão científica do estágio de conhecimento atual nacional
e regional em relação aos disruptores endócrinos;
- Avaliar sob a perspectiva de países em desenvolvimento ou com economia
de transição, o problema dos disruptores endócrinos;
- Discutir as necessidades de uma abordagem internacional científica em relação
aos disruptores endócrinos;
- Identificar oportunidades e abrir diálogo no sentido de cooperação internacional
que faça avançar a compreensão dos temas relacionados aos disruptores endócrinos.
Os participantes dos países em desenvolvimento apontaram que
a maioria dos cidadãos dos seus países de origem não estão acompanhando o tema
em discussão. Soma-se a isso, o fato de que na maior parte das vezes, os governos
destes países tratam o assunto como muito pobremente definido e esotérico para
desperdiçar os já parcos recursos, retirando de outras áreas problemáticas
da saúde pública. Apesar disso há por parte de todos alguma preocupação de
que a contaminação química (e.g. pesticidas, industrial e militar) possa afetar
a saúde humana. Os governos destes países tem porém, que responder ainda as
necessidades básicas, como fornecimento adequado de água limpa e comida, além
de inúmeros outros problemas muito mais emergências do que explorar possíveis
efeitos crônicos de "disruptores" químicos no meio ambiente. Quando a preocupação
está presente nestes países, ela existe apenas em relação a exposição humana
e particularmente a exposição ocupacional a pesticidas e a necessidade de validar
procedimentos de testes e screening.
Foram tiradas linhas gerais de procedimento em relação aos
disruptores hormonais a serem consideradas pelos países e organizações participantes,
no sentido de garantir abordagem de risco global e revisão de todos os químicos.
Também foi definido um plano de ação para a comunidade científica
internacional e para os tomadores de decisão (governos) em que se propôs um
inventário de todas as pesquisas correntes nos países em relação aos disruptores
hormonais para disponibilizar para a comunidade internacional.
Além disso, seleção e validação de metodologias de screening
e testes, o que deverá ser coordenado pela OECD.
Legislação recente dos EUA sobre qualidade e segurança da água
levou a formação de um comitê de estudos que deverá, no prazo de dois anos,
desenvolver estratégias para testes e screenings capazes de identificar os "disruptores" endócrinos
para implementar no terceiro ano.
Outros esforços para clarear a ação destes químicos são a
expansão dos estudos de qualidade do semem, que já acontece na Europa e compilação
dos estudos já existentes de indicadores humanos como o câncer de mama, câncer
de testículo, criptorquidismo, maturação sexual retardada ou prematura, etc.,
que possam ser relacionados com disruptores endócrinos.
Ainda há muitos pontos conflitantes na bibliografia internacional,
mas praticamente não há discussão em relação a evidencias de atividades deletérias
de algumas substâncias exógenas para o sistema endócrino. Resta estabelecer
testes de detecção destas atividades a fim de que seja possível estabelecer
um sistema de vigilância e prevenção, tanto para o ambiente quanto para a saúde
humana.
Bibliografia:
- Colborn, T; Drumanoski; Peterson, M. Our Stolen Future. by
Dutton, Penguin Books, USA, March 1996
- Cooper RL, et al. Endocrine disruptors and reproductive development:
a weight-of-evidence overview. J Endocrinol. 1997 Feb;152(2):159-66.
Review.
- Greenpeace International Homepage - http://www.greenpeace.org/~toxics/he/h-human3.html
- International Workshop on "Environmental Endocrine-Disrupting
Chemicals: Neural, Endocrine and Behavioral Effects" held in Erice, Sicily,
November 5-10, 1995 sponsored by International School of Ethology at the Ettore
Majorana Centre for Scientific Culture. Erice Statement, 1995
- Kavlock RJ, et al. Research needs for the risk assessment
of health and environmental effects of endocrine disruptors: a report of the
U.S. EPA-sponsored workshop. Environ Health Perspect. 1996 Aug;104
Suppl 4:715-40. Review.
- Sonnenschein C., et al. An update review of environmental
estrogen and androgen mimics and antagonists. J. Steroid Biochem. Mol
Biol. 1998. Apr;65(1-6):143-50.Review.
Autora: Dra. Agnes Soares da Silva
Mestra em Saúde Pública |
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