REPORTAGEM DO JORNAL A TRIBUNA DE SANTOS (A TRIBUNA DIGITAL) NA INTEGRA

Litoral Paulista, Domingo, 7 de Maio de 2000

Câncer
Estudos relacionam aumento da doença na BS

 

Lucas Tavares
Da Reportagem

 

Para cada grupo de 100 mil habitantes da Baixada Santista, 154,2 homens e 93,8 mulheres morreram em 1993 em decorrência de algum tipo de câncer. As médias são as maiores do Estado e superam em até mais de duas vezes os indicadores nacionais.

  Os dados fazem parte do mais recente estudo comparativo sobre câncer publicado no Estado. O trabalho foi elaborado pelo médico epidemiologista Luiz Augusto Mascarenhas da Fonseca, como parte de tese de doutoramento aprovada em 1996 pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

  As diferenças apontadas por Mascarenhas são significativas. Em 1993, no Brasil, as baixas por câncer somaram 67,77 homens por 100 mil habitantes. A taxa no sexo feminino foi de 55,36, segundo relatórios do Instituto Nacional do Câncer (Inca) do Ministério da Saúde.

  Ou seja, proporcionalmente, na região as mortes no sexo masculino por decorrência de cânceres superaram em 127,53% o contexto médio nacional. O patamar apresentou-se 69,4% maior entre as mulheres. As taxas por 100 mil habitantes são adotadas mundialmente como padrão para medir níveis de mortalidade e incidência de doenças em universos populacionais diferentes.

  No estudo de Fonseca, a Baixada também supera com folga outras partes do Estado. Um exemplo é a região vizinha do Vale do Ribeira, que apresentou os menores índices. Os óbitos da Baixada foram 88,7% e 101,2% entre homens e mulheres, respectivamente.

  Os números são reforçados por um levantamento inédito da Fundação Oncocentro da Secretaria Estadual de Saúde, que coloca Santos como cidade campeã de incidência de casos em pacientes vivos. Os dados são de 1991.

  Para o trabalho, foram pesquisados 18 médios e grandes municípios do Interior. A Cidade aparece com 494,8 casos por 100 mil habitantes entre os homens e 365,1 entre as mulheres. Os percentuais são, respectivamente, 46,7% (homens) e 29,4% (mulheres) superiores à media das cidades pesquisadas. Um outro estudo da Oncocentro aponta, no entanto, que os dados de câncer na Baixada caíram de 8% a 9% de 1987 até 1997 entre homens e mulheres.

  Por quê? — Os levantamentos acima não provam que a poluição contribuiu diretamente para a elevação do câncer. ‘‘Mas a influência do pólo petroquímico é uma possibilidade importante a ser investigada’’, pondera Fonseca.

  A suspeita de vinculação dos poluentes às taxas de mortalidade foi lançada em 1997 em estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP. ‘‘Constatamos que, entre os homens, a mortalidade é maior na Baixada, nos municípios que estão sob influência do processo industrial’’, revela a professora doutora Marcília de Araújo Medrado Faria, coordenadora do projeto na Faculdade de Saúde Pública e médica-chefe do Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital das Clínicas.

  A pesquisa levantou o número de mortes entre os homens moradores da região no período de 1980 a 1993. Comparou os dados das quatro cidades da Baixada mais próximas do pólo aos números relativos às mais distantes. A pesquisa foi restrita aos homens porque o público masculino compõe a maior parte da massa trabalhadora das zonas industriais — em tese, mais sujeita à poluição.

  O estudo dividiu a região em dois estratos de municípios. No estrato 1 (ver gráfico), foram colocados Cubatão, Santos, Guarujá e São Vicente (Bertioga foi considerada com parte de Santos). No estrato 2, ficaram Mongaguá, Praia Grande, Itanhaém e Peruíbe.

  As modalidades de câncer relacionadas a poluentes cancerígenos existentes no pólo tiveram taxas de mortalidade até seis vezes maiores nas cidades próximas da zona industrial (ler matéria). É o caso dos tumores malignos de bexiga.

  No período de 1980 a 1986, quando a poluição era menos controlada em Cubatão, o estrato 1 teve incidência de mortes 50,05% superior ao segundo estrato para todos os tipos de câncer. De 1987 a 1993, a diferença caiu para 36,6%.

  Apesar de a pesquisa não estabelecer diretamente a poluição como causa do câncer, os números servem como alerta. ‘‘São um forte indício estatístico de que haja problemas com a poluição e acendem uma luz vermelha para um melhor controle’’, comenta Valeska Carvalho, chefe de Avaliação e Epidemeologia do Inca.

  Para comprovar ou não a hipótese de que poluentes induzem ao câncer, seria necessária uma ampla pesquisa de acompanhamento de pessoas e doentes. ‘‘É o que pretendemos fazer com um estudo de caso-controle’’, anuncia Marcília.

 

Mortalidade é maior perto do pólo de indústrias

 

Todos os tipos de câncer têm maiores taxas de mortalidade entre os municípios da Baixada mais próximos do pólo industrial. Mas as modalidades vinculadas a poluentes produzidos em Cubatão apresentam as diferenças de comparação mais significativas, de acordo com o estudo coordenado pela professora Marcília Medrado Faria.

  Trata-se dos cânceres de bexiga, sangue (leucemia e linfomas) e fígado. O de bexiga, associado a substâncias como os hidrocarbonetos aromáticos (benzeno e benzo(a)pireno, entre outros), tem a maior diferença.

  Nas cidades próximas a Cubatão, ele chegou a superar em 6,81 vezes os dados de mortalidade dos municípios estrato 2. A diferença foi apurada entre homens de 35 a 64 anos que morreram no período de 1980 a 1986.

  ‘‘É um dos indicadores que mostram uma evidência da ação da poluição’’, afirma Silvana Rubano Turci, toxicologista do Inca. ‘‘Porém, ainda é necessário um estudo (de caso-controle) para constatar essa relação’’.

  Os casos de leucemia, que envolveram homens de todas as idades, também tiveram taxas de óbitos significativamente maiores. Entre 1980 e 1986, a mortalidade foi 99,3% maior nas cidades do estrato mais próximo do pólo. Entre 1987 e 1993, o percentual caiu para 94,9. A leucemia é associada ao benzeno e às dioxinas — substâncias altamente tóxicas lançadas durante anos pelas empresas cubatenses.

  O câncer encefálico (cerebral) também apresentou diferenças significativas em todas as idades pesquisadas. Entre 1980 e 1986, morreram 312,69% mais de homens nas cidades próximas às industrias do que nos outros quatro municípios pesquisados. Entre 1987 e 1993, a diferença nas taxas foi reduzida para 161,62%.

  ‘‘Ainda não está provado que o câncer encefálico esteja relacionado a poluentes, mas o dado é interessante’’, pondera Silvana.

  O estudo também traz outra constatação. As taxas de mortalidade aumentaram no período de 1987 a 1993 nos dois estratos de cidades pesquisadas, mas a diferença entre as cidades próximas e as distantes do pólo caíram no período.

  Na visão de Silvana, talvez pelo fato de a poluição ‘‘ter sido melhor controlada no pólo de Cubatão nos últimos anos’’.

 

Médica quer que empresas financiem pesquisa

 

A médica e professora Marcília Medrado Faria defende que as indústrias de Cubatão financiem a realização de um estudo para descobrir definitivamente se poluentes cancerígenos presentes no meio ambiente ou no local de trabalho das indústrias da região tiveram influência nos casos de câncer. ‘‘Seguramente, não é coisa grande em termos de custos’’, afirma Marcília, que pretende procurar executivos das empresas instaladas no pólo petroquímico para solicitar recursos.   A Faculdade de Saúde Pública da USP tem planos de realizar um estudo com a metodologia de caso/controle. O levantamento custaria de R$ 75 mil a R$ 150 mil anuais, dependendo de quantos tipos de cânceres forem pesquisados.

  De acordo com Marcília, que coordenará os trabalhos, a pesquisa permite comprovar se substâncias químicas presentes no pólo influem no aparecimento de neoplasias malignas. Um projeto que detalha a realização do trabalho aguarda aprovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O estudo só será realizado se bancado pela Fapesp ou pelas indústrias.

  A Faculdade de Saúde Pública chegou a realizar um estudo-piloto de caso/controle na região no ano passado. Mas os dados coletados ainda são insuficientes para conclusões.

  Metodologia — Pelo método caso/controle, pacientes de câncer são comparados a indivíduos não-portadores da doença. Para cada tipo de câncer, são selecionados 300 pacientes (chamados de casos) em hospitais da Baixada. O mesmo número de pessoas não-portadoras moradoras na região também é acompanhado pelos pesquisadores.

  Por meio de questionários, tanto os pacientes quanto os não-portadores (denominados controles) terão um perfil da vida passada quanto à exposição a produtos tóxicos. Na pesquisa, também vai se levantar o uso de tabaco e álcool, habitos alimentares e perfil sócio-econômico das pessoas estudadas.

  ‘‘No final do levantamento, poderemos dizer quais substâncias, hábitos ou vida social contribuíram para o aparecimento da doença’’, diz Marcília. As conclusões são obtidas por meio de comparações estatísticas do grupo de casos com o de controles.

  A Faculdade de Saúde Pública da USP também está negociando a realização de exames no DNA (código genético) dos pacientes pesquisados. O objetivo é saber de que forma ele interage com substâncias químicas e poluentes na formação do câncer.

 

Diretor de órgão estadual contesta os dados

 

Os estudos da USP e Fundação Oncocentro foram contestados pela Direção Regional (DIR-XIX) da Secretaria Estadual de Saúde. O diretor da DIR, Gilberto Simão Elias, diz que as estatísticas dos três estudos da USP e da Fundação Oncocentro ‘‘não refletem a realidade de hoje’’.

  ‘‘Os dados de 1998 e 1999 do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que a Baixada não lidera o número de casos de câncer atualmente’’, afirma o diretor.

  De acordo com tabela do SUS divulgada por Elias, em 1999 a Baixada Santista ocupou a quinta posição do Estado entre 24 regiões administrativas do Estado.

  A Baixada aparece com 94,6 mortes por 100 mil habitantes. Registro ficou em primeiro lugar, com 150,03.

  A tabela do SUS não traz a taxa de mortes por sexo. Os dados apresentados por Elias também têm fontes diferentes das obtidas pela Oncocentro e USP. Os números do SUS são provenientes do sistema de internações e procedimentos médicos. Os da USP e Oncocentro foram obtidos na Fundação Seade.

  Para Elias, os dados da Seade referentes aos anos 80 e 90 que serviram como base dos estudos da USP e Oncocentro ‘‘podem ter sido falhos’’. ‘‘Naquela época, as informações eram defasadas’’, afirma. ‘‘Não tiro a importância dos estudos, mas eles não refletem a realidade atual’’.

  A favor de Elias, pesa o fato de um outro estudo da Fundação Oncocentro apontar a queda de 8% a 9% na mortalidade por câncer de 1987 a 1997. No biênio de 87/88, as taxas foram de 128,7 homens e 87,1 mulheres mortos por 100 mil habitantes. Em 1997 e 1998, caíram para 117,3 e 79,1 (ver gráfico).

  Poluição — Elias também contesta os dados do estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP que apontam maior mortalidade de câncer nas cidades próximas ao pólo de Cubatão. As tabelas do SUS mostram cenário estatístico diferente.

  Em 1999, as cidades que lideraram as taxas de mortalidade de câncer foram Itanhaém e Mongaguá. Itanhaém figura com 240 mortes por 100 mil habitantes. Mongaguá tem 110,1.

  Santos e Cubatão aparecem na terceira e quarta colocações, respectivamente com 105,6 e 104,2 mortos por 100 mil habitantes.

  Para Elias, o fato das cidades próximas ao pólo terem os melhores hospitais da região pode ter contribuído para que tivessem maiores níveis de mortalidade apurados no estudo da USP.

  ‘‘Esses hospitais acabam fazendo com que haja uma migração para estas cidades, o que pode resultar em distorções nos dados’’.

  Marcília Medrado Faria rebate. ‘‘Os dados da Fundação Seade são de pessoas que morreram e residiam nas cidades’’.

  Santos — O secretário de Saúde de Santos, Edmon Atik, disse ser favorável à realização de estudos de caso/controle para investigar se a poluição industrial teve relações com o nível de câncer. ‘‘Se há uma suspeita, tem que haver um aprofundamento do estudo para se chegar à realidade. Estamos até dispostos a ajudar a Faculdade de Saúde Pública nesse estudo’’, afirma. Atik, que na década de 70 foi secretário de Saúde de Cubatão, não quis emitir opiniões fechadas sobre os dados dos estudos da Faculdade de Saúde Pública da USP sobre as relações do câncer com a poluição. ‘‘Fica difícil falar sem ter conhecimento’’.

 

Professor defende gerenciamento ambiental

 

  As empresas do pólo siderúrgico e petroquímico de Cubatão devem substituir os atuais equipamentos de produção por tecnologias limpas para evitar impactos prováveis da poluição, como o aumento da mortalidade por câncer nas cidades mais próximas à zona industrial.

  A proposta consta de tese de doutorado apresentada, no dia 20 de abril, pelo professor universitário e engenheiro santista José Carlos Nunes Barreto ao Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP. A tese foi aprovada por unanimidade pelos examinadores da universidade.

  No estudo, Barreto usa os dados da pesquisa de Marcília Medrado Faria para enfatizar a necessidade de mudanças tecnológicas. ‘‘Há uma relação biunívoca (de causa e efeito) entre o câncer e a poluição’’, afirma.

  O professor também alerta para a deposição de poluentes no fundo do estuário de Santos. Estudos da Cetesb realizados em 1997 apontam a existência de benzo(a)pireno em altas taxas no fundo do estuário santista.

  ‘‘O benzo(a)pireno é altamente tóxico e cancerígeno e foi jogado pelas indústrias ao longo dos anos’’, afirma Barreto. Para o professor, a Cosipa tem sido a maior responsável pela contaminação pela deposição do produto no estuário. ‘‘As substâncias podem contaminar animais marinhos consumidos por seres humanos. Estudos de segurança alimentar para prevenir isso têm que ser realizados’’.

  Na tese, Barreto cita tanto os dados de câncer quanto de poluição para criticar o atual modelo de gerenciamento ambiental das indústrias.

  Num questionário realizado com executivos das oito indústrias que mais contribuem com a geração de resíduos industriais, Barreto constatou que ‘‘metade das empresas pesquisadas sequer tem política ambiental com diretrizes publicadas conforme a Norma Técnica ISO 14.000’’.

  As oito indústrias pesquisadas geram 92,53% do resíduos classificados de classe I (alta toxidade).

  As normas ISO 14.000 — criadas pela organização não-governamental Internacional for Standardization Organization (ISO) — definem os padrões de qualidade em controle de poluição e preservação ambiental mais aceitos hoje mundialmente. As empresas que as cumprem recebem certificado da ONG.

  Na visão de Barreto, o fato de metade das principais indústrias não estar cumprindo as normas da ISO 14.000 evidencia o ‘‘despreparo do pólo’’ para lidar com questões ambientais.

  Matriz de qualidade — Na tese, o professor propõe um novo modelo de gerenciamento ambiental para o pólo de Cubatão. Para isso, ele desenhou uma ‘‘matriz de qualidade ambiental’’.

  A matriz foi desenvolvida com base em teorias de qualidade em administração de empresas — entre elas, as normas ISO 14.000.

  ‘‘A matriz nada mais é do que uma ‘receita de bolo’ para que as empresas se enquadrem nos padrões de qualidade no controle dos impactos ambientais’’, explica.

  Um dos principais pontos preconizados na matriz é a substituição das tecnologias de geração de energia. ‘‘As indústrias têm que usar equipamentos menos impactantes de energia alternativa, como a energia solar, eólica (ventos) e a combustão de hidrogênio’’.

  O uso do hidrogênio é a principal recomendação para a Cosipa. ‘‘A indústria siderúrgica responsável pela contaminação do estuário com benzo(a)pireno deverá mudar sua matriz energética (à base de coque) com utilização do hidrogênio’’.

  Segundo Barreto, a tecnologia de hidrogênio é mais barata e resulta em poluição zero. No entanto, estima o professor, as indústrias terão que investir ‘‘alguns bilhões de dólares’’ para adequar os equipamentos. No estudo, Barreto propõe também a criação de um fundo público de recuperação ambiental.


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