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Jornal da Associação dos
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| Internet: http://www.acpo.org.br
Abril de 2000 - nº 1 |
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Carta aberta aos trabalhadores da Rhodia Poliamida/Santo André
Nós, trabalhadores transferidos da Rhodia/Cubatão, gostaríamos de pedir um minuto da sua atenção no sentido de que possamos oferecer alguma informação a respeito de nossa causa e também do contexto no qual estamos envolvidos:
1- QUEM SOMOS
?
Somos funcionários
oriundos da extinta fábrica de solventes clorados e do atualmente interditado
incinerador de resíduos tóxicos da Usina Química de Cubatão, fechada por
determinação da Justiça desde junho de 1.993.
2- O QUE A
EMPRESA PRODUZIA NA U.Q.C. ?
No início dos
anos setenta, aproveitando-se da conivência da ditadura militar, a Rhodia
instalou-se em Cubatão com a implantação de duas fábricas altamente
poluidoras: uma para produção do inseticida conhecido como PÓ
DA CHINA (banido mundialmente) e outra para produção de solventes
clorados, um dos quais matéria-prima para o gás freon
(que destrói a camada de ozônio).
3- COMO TUDO
COMEÇOU ?
Estes produtos
já enfrentavam há trinta anos atrás a oposição das entidades ambientalistas
e de defesa da saúde pública nos países desenvolvidos, inclusive na França,
devido aos seus efeitos nefastos sobre o meio ambiente e a saúde humana. No
entanto, para preservar seus interesses econômicos e valendo-se da negligência
do governo brasileiro, a Rhône-Poulenc trouxe tais atividades indesejadas em
outros países para Cubatão.
4- O QUE
OCORREU EM CUBATÃO ?
Mesmo
conhecendo a periculosidade destes produtos tóxicos (inclusive seus resíduos
de fabricação), a empresa preferiu valer-se da omissão das nossas autoridades
e para aumentar seus lucros descartou
de maneira completamente inadequada e criminosa seus rejeitos industriais,
primeiro enterrando-os dentro da UQC e depois simplesmente jogando-os a
céu aberto ao longo de todo o litoral sul. Mais de 12.000 (doze mil)
toneladas de produtos poluentes e cancerígenos foram despejados de Cubatão até
Itanhaém, num raio de mais de 80 (oitenta) quilômetros de extensão e
comprometendo irremediavelmente mais de 300.000 (trezentas mil) toneladas de
solos e águas subterrâneas. O episódio é considerado um dos dez crimes ecológicos
mais graves do mundo em todos os tempos.
5- QUE
PRODUTOS TÓXICOS SÃO ESTES ?
São conhecidos mundialmente pelo termo genérico de organoclorados, extremamente perigosos por não serem biodegradáveis e acumularem-se nos tecidos humanos por décadas. Contaminam toda a cadeia alimentar, e nos seres vivos (inclusive no Homem) provocam danos ao fígado, rins, coração, sistema imunológico, sistema nervoso central, aparelhos respiratório e reprodutor e podem desencadear câncer a médio e longo prazos. Os descendentes de pessoas contaminadas já podem nascer com sérios problemas, inclusive mal-formações, como as vítimas do agente laranja no Vietnã.
6- COMO AS PESSOAS FORAM ATINGIDAS ?
Tanto os
funcionários de Cubatão como os moradores das áreas contaminadas pela empresa
se intoxicaram (contaminaram) através da poeira, gases e vapores inalados junto com
o ar, pelo consumo de água e alimentos impregnados com estes venenos e pelo próprio
contato com materiais contaminados, desde roupas até o
próprio solo. Nas áreas externas à fábrica, análises feitas pelo
Instituto Adolfo Lutz apontaram estes tóxicos até no leite materno das
moradoras destes locais, na sua maioria pessoas de baixa renda que jamais
receberam qualquer reparação da empresa ou do poder público.
Dentro dos limites da fábrica, as análises apontaram níveis de
contaminação milhares de vezes superiores aos limites tolerados em outros países.
7- E AS CONDIÇÕES
DE TRABALHO, COMO ERAM ?
As piores possíveis.
Equipamentos sucateados, EPÌs inadequados e sonegação de informações
fizeram-nos trabalhar durante anos sob exposição intensa e sistemática, sendo
que nos julgávamos isentos de qualquer risco, por absoluta falta de
conhecimento sobre aquilo que manuseávamos diariamente. A empresa nos convenceu
por anos de que os problemas de saúde tinham outras origens e que “ ambiente
de fábrica é assim mesmo”.
8- COMO O
PROBLEMA VEIO Á TONA ?
Em todos estes
anos, a Rhodia omitiu estas informações dos funcionários, e sempre mentiu
sobre os problemas de saúde reclamados pelos mesmos, atribuindo a outras causas
a origem destes. Trabalhadores com sérios problemas neuro-psicológicos em
decorrência da contaminação foram mantidos expostos e medicados com psicotrópicos,
outros foram demitidos quando seus exames periódicos indicavam que problemas
graves se tornavam iminentes. Nunca soubemos que estes tóxicos estavam se
acumulando no nosso corpo, até que o médico particular de um companheiro
descobriu a presença destes através de exames feitos à revelia do Depto. de
medicina ocupacional da fábrica. Sigilosamente começamos todos a fazer o mesmo
exame, que comprovou a intoxicação em todos os trabalhadores: a farsa começava
e ser descoberta.
9- O QUE A
RHODIA PLANEJAVA ?
Com a
crescente pressão em escala mundial pela proscrição destes produtos e com a
percepção de que os funcionários contaminados começavam a tomar ciência do
problema em que estavam envolvidos, a empresa começou a dar sinais evidentes de
desativação, ainda que gradual e dissimulada, das suas atividades em Cubatão,
planejando ao que tudo indica demitir os contaminados antes que o episódio se
transformasse num novo escândalo, a exemplo do ocorrido no início dos anos
oitenta, quando os despejos externos foram descobertos e aos quais a imprensa
rotulou de LIXÕES QUÍMICOS DA RHODIA
(até hoje são conhecidos onze
depósitos, e pode haver mais ainda não descobertos). Estes LIXÕES
renderam à Rhodia condenações em quatro Ações Civis Públicas na Baixada
Santista, por contaminar o meio ambiente e expor seus funcionários e a população
a estes produtos tóxicos.
10- QUAL ERA O
QUADRO, POUCO ANTES DA INTERDIÇÃO ?
Com
trabalhadores já apresentando sequelas e os demais com sua saúde em risco pelo
resto da vida, os contaminados ainda descobriram que, uma vez demitidos,
dificilmente conseguiriam recolocação em outras indústrias, pois o problema
(apesar de omitido dos trabalhadores) já era notório para as outras empresas,
que desta forma relutavam em admitir qualquer trabalhador oriundo da fábrica da
Rhodia de Cubatão. Aos riscos à saúde,
portanto, somava-se também a
discriminação permanente no mercado de trabalho.
A morte, em dezembro de 1.992, do companheiro Carlos Alberto Miranda (com
pouco mais de trinta anos de idade, mulher e dois filhos pequenos) motivada por
problemas de depressão imunológica sem qualquer outra causa evidente que não
a contaminação, foi a gota dágua para
o fechamento da UQC.
11- DIANTE
DISSO, O QUE FIZERAM OS CONTAMINADOS ?
Sem outra
alternativa, denunciaram o caso ao Ministério Público do Estado de São Paulo,
que solicitou a interdição judicial da usina, sendo prontamente atendido pela
Justiça, que determinou ainda que a empresa não deveria demitir os
contaminados, pois os mesmos não poderiam ser ainda mais prejudicados pela
irresponsabilidade da empresa. A Rhodia jamais contestou a liminar que
interditou a fábrica, mostrando que realmente já não tinha mais nenhum
interesse nessa unidade. Sob forte pressão dos trabalhadores e para evitar uma
nova condenação, a empresa assinou um acordo judicial (Termo de Ajustamento de
Conduta – TAC), onde se comprometia a descontaminar o ambiente da fábrica e
realizar uma ampla avaliação médica nos funcionários, ex-funcionários e
trabalhadores de empreiteiras que se contaminaram na UQC, com garantias de
manutenção do emprego e de tratamento médico para os que apresentassem
qualquer agravo (distúrbios indicativos de males latentes) e doenças já
estabelecidas, com nexo com a intoxicação crônica pelos organoclorados.
12- COM O
ACORDO JUDICIAL, O PROBLEMA SE RESOLVEU ?
Infelizmente não.
A empresa, fazendo uso de seu poderio político-econômico, conseguiu
gradativamente protelar o cumprimento das obrigações assumidas. Contou para
isso, como é corriqueiro em nosso país, com a conivência de nossos órgãos públicos
(como a CETESB), com a cooptação da classe política (um dos advogados
contratados pela empresa é secretário do governo Covas), com o desinteresse da
imprensa a partir do desgaste do tema no noticiário, com a complacência das instituições (INSS, Ministério do Trabalho, entre
outros) e pior: a omissão flagrante do sindicato local (que está sendo
processado pelos contaminados por ter assinado acordo coletivo lesivo aos
interesses dos trabalhadores a partir de uma assembléia fraudulenta).
Até hoje, a empresa têm dificultado as avalia;ões médicas dos funcionários,
e passados quase sete anos da interdi;áo ainda náo foram concluídos os exames
dos ex-funcionários e trabalhadores de empreiteiras.
13- COMO FORAM
ESTES ANOS PARA OS CONTAMINADOS ?
Difíceis,
apesar daqueles que não conhecem nossa causa em profundidade acharem nossa
situação cômoda. Foram anos sem evolução profissional, estagnação
salarial e a presença constante da ameaça do desemprego. Não são poucos os
que, diante da angústia e ansiedade provocadas por esta situação entraram em
depressão (necessitando de tratamento psiquiátrico) e/ou entregaram-se ao
alcoolismo. O mais grave no entanto, foi a morte de mais de uma dezena de
trabalhadores contaminados vitimados por moléstias que, segundo a literatura médica,
indicam como causa mais provável a intoxicação crônica pelos organoclorados:
problemas cardíacos, comprometimento renal e/ou hepático, imuno-depressão,
entre outros distúrbios graves. Ainda hoje, existem trabalhadores afastados
totalmente do trabalho dado ao quadro de gravidade em que se encontram, entre os
quais um trabalhador com pouco mais de trinta anos de idade, vítima de câncer
da tireóide. Temos suspeitas de que a empresa pretende empurrá-los
para a aposentadoria por invalidez, sem qualquer reparação pelo mal que
lhes foi causado. São operários que durante anos contribuíram para a geração
de lucros para a empresa
É a velha prática de privatizar os lucros e socializar os prejuízos.
14- COMO OS
TRABALHADORES ENFRENTARAM ESTA SITUAÇÃO ?
Sem poder
contar com o sindicato dos químicos da Baixada Santista, os contaminados
organizaram-se na Associação dos Contaminados Profissionalmente por
Organoclorados – ACPO, entidade sem fins lucrativos criada para defender os
interesses dos trabalhadores afetados e denunciar esta situação à opinião pública.
A ACPO têm contado com o apoio de diversas entidades e pessoas comprometidas
com as causas populares, entre as quais sindicatos
ligados à CUT e a organização ecológica Greenpeace, entre outros.
Estabelecemos amizade com outras entidades semelhantes, como por exemplo a
Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto – ABREA. Nestes anos de luta,
paralelamente à defesa dos nossos direitos, divulgamos a problemática dos
organoclorados, a contaminação de nosso meio ambiente e as agressões sofridas
pelo trabalhador brasileiro. Estivemos sempre próximos ao Ministério Público
exigindo o cumprimento do TAC, única garantia que possuímos.
15- COMO A
RHODIA SE COMPORTOU EM RELAÇÃO À ACPO ?
Como somos
intransigentes em relação ao respeito aos nossos direitos e cobramos também
uma solução para os graves problemas ambientais causados pela empresa em nossa
região, a empresa simplesmente mantêm-se irredutível em sua posição
arrogante de não negociar uma solução
definitiva para nosso problema. Em diversas ocasiões solicitamos formalmente o
estabelecimento de um diálogo entre a direção da empresa e a ACPO, sem
sucesso. Diante desta posição
intolerante da direção da empresa, mantida durante mais de seis anos de
enfrentamento político, decidimos entrar no final do ano passado com ações cíveis
indenizatórias.
16- QUAL A REAÇÃO
DA RHODIA ?
Desesperada, a
empresa arquitetou uma estratégia para desmobilizar os trabalhadores e a ACPO:
impôs arbitrariamente transferências para outras unidades, com prejuízos
salariais que chegam a quarenta por cento de nossos vencimentos, além da perda
de direitos históricos como transporte gratuito, abono de férias, etc. Os
trabalhadores foram distribuídos para diversas unidades, visando fracionar o
grupo e desta forma enfraquecê-lo, além de afastar-nos do Ministério Público
de Cubatão, responsável pela fiscalização do TAC. No fundo, a intenção
clara de nos forçar a aderir a acordos demissionais lesivos aos nossos
interesses, principalmente a longo prazo.
17- COMO OS
CONTAMINADOS ENCARAM ESTAS TRANSFERÊNCIAS ?
Em primeiro
lugar, nada temos contra as unidades para as quais estamos sendo transferidos e
não somos “fechadores de fábrica”, como tentam nos difamar (a Rhodia sim
é que fecha unidades que não lhe interessam mais econômicamente, sem se
preocupar com as demissões resultantes e o conseqüente drama social provocado
por estas). Também não concordamos com nenhuma eventual demissão verificada
nestas unidades com o objetivo de alocar os transferidos de Cubatão, muito ao
contrário deploramos qualquer tentativa neste sentido. Quanto às cidades em
que se situam, merecem todo nosso respeito, só não podemos cogitar nossa mudança
definitiva para as mesmas porquê nossas esposas trabalham na Baixada Santista e
precisamos de seus rendimentos para manter nosso bem estar e de nossos filhos, já
ameaçado com a redução salarial acima descrita. Preocupa-nos no entanto, e não
escondemos tal apreensão de ninguém, as condições de segurança e higiene do
trabalho com as quais nos deparamos nestas unidades. Fortes odores de produtos
químicos, sobre os quais não nos prestam maiores informações, são perceptíveis
ao longo de toda a área destas fábricas. Tememos sim
que estejamos todos, vocês companheiros inclusive e principalmente,
passando pela mesma via crucis ocorrida
em Cubatão, ainda que em intensidade talvez inferior. Embora tal situação não
seja salutar para quem quer que seja, em nosso caso particular o eventual
contato com produtos químicos (ainda que ocasional) torna-se extremamente
perigoso pois pode potencializar os efeitos nocivos da contaminação que já
possuímos e precipitar o surgimento de doenças graves, como o câncer por
exemplo. Qualquer profissional de saúde pública isento confirmará aquilo que
aqui estamos descrevendo.
18- O QUE NÓS,
CONTAMINADOS DE CUBATÃO, DESEJAMOS ?
Que diante destas explicações, nossos colegas entendam nossa posição e os motivos de nossa luta, que respeitem nossa causa (ainda que interiormente, para que não se exponham a eventuais represálias por parte da empresa) e que observem que exigimos apenas o respeito que todo Ser Humano merece, e as condições dignas de trabalho a que todo trabalhador têm direito, contaminado ou não.
Desde já agradecemos sua atenção e compreensão.
ACPO
- Associação de Combate aos POPs
ACPO - Associação de Consciência à Prevenção
Ocupacional
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